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Glossário · técnico

Pirogênio

Substância que causa febre quando injetada. Em magistral, controle crítico em fórmulas estéreis (oftálmicas, parenterais, irrigação).

Glossáriotécnico

Pirogênio (do grego pyr = fogo) é qualquer substância que causa elevação de temperatura corporal quando administrada por via parenteral. Pirogênios mais comuns em farmácia são:

  1. Endotoxinas bacterianas (LPS) — lipopolissacarídeos da parede de gram-negativas
  2. Componentes microbianos — peptidoglicano, ácido teicoico, exotoxinas
  3. Resíduos químicos — alguns excipientes contaminantes

Mecanismo da febre induzida:

Pirogênio → reconhecido por receptores TLR4 (LPS), TLR2 (peptidoglicano) → ativação de macrófagos → liberação de IL-1, IL-6, TNF-α → ação no hipotálamo → elevação setpoint térmico → febre.

Doses muito baixas de endotoxina (~1 ng/kg) já causam febre clínica.

Onde é crítico em farmácia magistral:

1. Soluções injetáveis e parenterais

  • Limite endotoxina USP: máximo 5 EU/kg/h por via IV
  • Manipulação requer classe ISO 5 (sala estéril, fluxo laminar)
  • Esterilização final por filtração 0.22µm + autoclavação quando possível

2. Soluções oftálmicas

  • Olho é "via parenteral pequena" — sensível a pirogênio
  • Limite: máximo 0.5 EU/mL para gotas
  • Manipulação em LAF + filtração

3. Soluções para irrigação cirúrgica

  • Volumes maiores → carga endotoxina total maior
  • Limite: máximo 0.25 EU/mL

4. Procedimentos invasivos (cirurgia plástica, dermo)

  • Tópicos pós-procedimento em pele violada (laser, peelings)
  • Padrão: minimizar carga microbiana mesmo se não exigido formalmente

Status farmácia magistral pré-AFE Brasil:

A maioria das farmácias magistrais brasileiras NÃO produz estéreis (não tem AFE Especial específica). Limita-se a:

  • Cápsulas
  • Cremes
  • Pomadas
  • Soluções não-estéreis (xaropes, gotas orais)

Estéreis (oftálmicos, parenterais) requerem AFE Especial Categoria diferente, sala limpa ISO 5, validação rigorosa, testes de pirogênio mensais.

A Farmanipulação não prevê estéreis em fase pós-AFE inicial — escala muda significativamente. Possível em roadmap pós-consolidação.

Testes de pirogênio:

TestePrincípioQuando usar
LAL (Limulus Amebocyte Lysate)Cascata de coagulação em presença de endotoxina LPSPadrão atual
Coelho febreInjetar produto em coelhos, medir temperaturaHistórico, pouco usado
rFC (recombinant Factor C)Versão sintética do LAL, sustentávelCrescendo, USP aceita
MAT (Monocyte Activation Test)Cultura de monócitos humanosPara outros pirogênios além de LPS

Limites USP por via:

ViaLimite endotoxina
Intratecal0.2 EU/kg/dose
Intravenosa5 EU/kg/h
Intramuscular5 EU/kg/dose
Oftálmica0.5 EU/mL
Irrigação0.25 EU/mL
Inalatória20 EU/mg (pó)

Prevenção em manipulação:

  1. Água para Injeção (WFI) — não usar água purificada padrão; WFI é livre de pirogênio
  2. Material estéril — vidraria autoclavada 121°C/30min, filtros 0.22µm
  3. Ambiente — sala ISO 5 com LAF, paramentação completa, máscaras
  4. Filtros de despirogenização — celulose impregnada, removem endotoxina
  5. Calor seco — 250°C/30min destrói endotoxina (vidraria)
  6. Validação — teste LAL final mandatório

Por que isso é tão difícil:

Pirogênio (especialmente LPS) é termoestável. Bactéria pode estar morta (sem CFU em cultura) mas LPS persiste. Logo, "esterilizar" não basta — precisa despirogenizar.

Calor úmido (autoclave 121°C/15min) mata bactéria mas NÃO destrói LPS. Para destruir LPS:

  • Calor seco 250°C/30min (vidraria)
  • Filtro despirogênico
  • Hidrólise alcalina (NaOH 0.1M, vidraria não-metálica)

Implicação prática:

Se uma farmácia pretende fazer estéreis, o investimento é da ordem de magnitude maior que para não-estéreis:

  • Sala limpa ISO 5 com LAF: R$ 200-500k extra
  • Equipamento adicional (autoclave, despirogenizador, LAL): R$ 100-200k
  • Validação contínua: R$ 30-60k/ano

Por isso o mercado magistral BR é dominantemente não-estéril. Fazer estéreis bem é operação industrial pequena, não "farmácia mais sofisticada".

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