Endotoxina = lipopolissacarídeo (LPS) presente na parede externa de bactérias gram-negativas (E. coli, Pseudomonas, etc.). É liberada quando a bactéria morre (autólise) e persiste no ambiente independente de viabilidade celular.
Estrutura:
LPS = Lipídio A + Núcleo + Antígeno O
(tóxico) (oligossac.) (variável por espécie)
O lipídio A é a porção responsável pela toxicidade — reconhecida pelo receptor TLR4 em humanos.
Por que é problema crucial em farmácia:
- Termoestável — autoclave (121°C/15min) NÃO destrói LPS. Mata a bactéria, mas o lipídio A persiste.
- Doses ínfimas causam febre — ~1 ng/kg IV pode iniciar pirogenia.
- Onipresente — qualquer ambiente com bactéria gram-negativa (água da torneira, ar não-filtrado, mão sem luva) é fonte.
- Cumulativa — paciente pode tolerar múltiplas exposições baixas, mas em parenteral o limite é absoluto.
Limites USP (já citados em pirogeno):
- IV: 5 EU/kg/h
- Oftálmica: 0.5 EU/mL
- Intratecal: 0.2 EU/kg
(EU = Endotoxin Unit, padronizado internacional)
Como destruir endotoxina:
| Método | Eficácia | Aplicação |
|---|---|---|
| Calor seco 250°C/30min | Total | Vidraria, instrumentos metálicos |
| Filtração 10kDa molecular | Parcial | Soluções aquosas |
| Hidrólise alcalina (NaOH 0.1M, 60°C) | Total | Vidraria não-metálica |
| Plasma de oxigênio | Alta | Equipamentos sensíveis a calor |
| Filtro hidrofóbico carbônico | Parcial | Pré-tratamento de água |
| Autoclave 121°C/15min | NÃO destrói | Apenas mata bactéria |
| Filtração 0.22µm | NÃO retém LPS | LPS é menor que poros |
Detecção — teste LAL:
LAL (Limulus Amebocyte Lysate) é extraído de caranguejo-ferradura (Limulus polyphemus). O sangue do animal contém células que coagulam em contato com endotoxina — mecanismo evolutivo de defesa.
Métodos LAL:
- Gel-clot (qualitativo) — mistura LAL + amostra, forma gel se positivo
- Turbidimétrico — mede turbidez gerada na coagulação
- Cromogênico — reação produz cor proporcional à endotoxina
Sensibilidade típica: 0.001-0.5 EU/mL.
Recombinant Factor C (rFC):
Versão sintética do componente ativo do LAL. Vantagens:
- Sustentável (não depende de captura de caranguejo-ferradura)
- Reprodutível lote-a-lote
- USP capítulo 85 aceita desde 2020
- Em transição global (ainda mais cara, mas crescendo)
Critério de liberação de lote estéril:
1. Teste de esterilidade (cultura 14 dias, BD-21 + thioglicolato)
2. Teste de endotoxina (LAL ou rFC) com limite específico USP
3. Teste de pH, osmolaridade, transparência
4. Teste de identidade do IFA (HPLC)
5. Teste de teor (HPLC ou UV)
Falha em qualquer um → lote rejeitado, paciente não recebe.
Em uma farmácia que NÃO faz estéreis (caso da Farmanipulação pré-AFE):
Endotoxina ainda importa em:
- Tópicos pós-procedimento dermatológico — pele violada absorve
- Manipulação de sondas e cateteres quando houver
- Em lavanderia interna se reusa material — protocolos de despirogenização
Para cremes, cápsulas e pomadas convencionais (administração pele íntegra ou via oral), o controle é via biocarga microbiana (CFU/g) em vez de endotoxina específica. RDC 67 exige limites:
- Mesofílicos totais menor que 10² CFU/g em cremes/pomadas faciais
- Ausência de E. coli, Pseudomonas, S. aureus, Salmonella
Investimento em laboratório de endotoxina:
- Reagente LAL: R$ 30-50/teste, vencimento 6 meses pós-abertura
- Equipamento leitor: R$ 30-100k
- Treinamento técnico: específico, ~3 meses curva
- rFC equivalente: ~2× custo LAL
Para farmácia que não vai fazer estéreis, terceirizar testes pontuais (laboratório externo certificado) é mais econômico.
Por que documentar mesmo em não-estéril:
Auditoria Anvisa pode questionar:
- "Como você garante ausência de contaminação microbiana em creme oftálmico (se oferecido)?"
- "Qual procedimento de limpeza despirogeniza vidraria de manipulação?"
Resposta documentada (POP de limpeza com NaOH ou calor seco; teste de cultura periódico) satisfaz auditoria sem precisar laboratório de endotoxina internamente.